Por todas nós

Coluna por: Sandra Raquew Azevêdo

10 de Janeiro de 2024

É com todo pesar e indignação que eu afirmo que o problema do feminicídio no Brasil é estrutural. Assim como a fome, a concentração de terras, a corrupção.

Muitas mulheres hoje, em diferentes partes do país, participam de um pedal em homenagem a artista venezuelana Julieta Hernández, morta de forma bárbara no município de Presidente Figueiredo, no Amazonas.  Os casos de feminicídio banham de sangue o país em todos os seus pontos cardeais.

Com a ascensão do conservadorismo (neofascismo) por aqui e a cultura das armas disseminada, vivemos um período crítico da história das mulheres brasileiras. Os dados estatísticos confirmam. Entre janeiro e junho de 2023, segundo estatísticas do Fórum Nacional de Segurança Pública, o Brasil registrou 722 feminicídios, um aumento significativo. O maior número da série histórica para um primeiro semestre registrado pela instituição.

As mulheres, pela cultura de dominação que se desdobra cotidianamente na violência doméstica, sexual, patrimonial, psicológica, são mortas sistematicamente. A ciclo-artivista Julieta Hernández não é apenas um caso a mais, e sim a expressão deste grave problema estrutural na sociedade brasileira. Depois do feminicídio da Julieta, outros seguem acontecendo, a exemplo do feminicídio de Ana Maria Scarpa, registrado pela imprensa como o primeiro feminicídio do ano de 2024 no Brasil.

Ainda nesta semana, aqui na Paraíba, uma mulher trabalhadora recebe um tiro na cabeça numa tentativa de feminicídio. O tiro disparado pelo homem com quem foi casada por vinte anos, Fabiano Gomes do Nascimento. A tentativa ocorreu de manhã cedo, próximo a um Hospital bastante frequentado da cidade, para todos verem.

Por aqui não se tem medo de agredir, estuprar, matar e atacar moralmente as mulheres. Na imprensa, alguns portais sequer deram nome a vítima, a trataram apenas por “uma mulher”. Ela, substantivo feminino que representa todas nós, seguia num hospital em estado grave, e lutava para sobreviver.  Verônica Mendes de Lima Gomes morreu ontem. Mulher trabalhadora. Mãe de três filhos, agora órfãos do feminicídio. Verônica também era avó, amiga, filha, eleitora.

Feminicídios no Brasil não são dados estatísticos. São a expressão de quanto o Estado brasileiro é falho no enfretamento a esta questão gravíssima e insustentável, e precisa encarar com seriedade a misoginia. Avançamos com marcos regulatórios, pois lutamos muito para que existissem. Mas nós mulheres sabemos que a mudança estrutural precisa acontecer.

No Dia Internacional da Mulher não nos venham com flores, nem solenidades burocráticas travestidas em tons de lilás e púrpura, e suplementos com pautas jornalísticas repletos de clichês recorrentes de que as mulheres são fortes e guerreiras, chefes de família, maioria do eleitorado… e blá, blá, blá…

Não nos venham com discursos religiosos hipócritas propagando o que na prática é negado diariamente, o direito de viver, de existir em paz, de ter garantia de vida dentro de nossas casas e ao andar nas ruas deste país. Serão quantas mais e até quando vão nos matar?

O feminicídio estrutural no país é um vexame internacional para o Estado brasileiro, que precisa despatriarcalizar uma sociedade que produz valores misóginos, de dominação e de extermínio de nós mulheres. Não dá para ignorar o fato de que há uma cultura de ódio às mulheres neste país e ainda um discurso de sacralização de um estereótipo feminino, a mulher recatada e do lar, que deve se submeter a todas as formas de dominação e exploração. Enquanto isto todas estão vulneráveis. As que vivem dentro de casa, ou que saem para trabalhar, estudar, levar sua criança na escola, as que amamentam.

E pouco importa a roupa que você usa. Se veste um hábito de freira ou calça jeans. Se você é celebridade ou anônima para o público, rica ou pobre, negra, branca, indígena, letrada ou analfabeta, do campo ou da cidade. Tristemente, na prática, ainda que sejamos o maior número de votantes neste país, a cidadania plena e o direito à viver em paz e segurança passa longe.

Hoje vamos homenagear a memória de Julieta Hernández, mas queríamos era ter Julieta e Verônica conosco, pedalando, fazendo arte, trabalhando… Hoje, mais que nunca, precisamos pedalar e caminhar juntas para quem sabe construir neste país algo realmente novo e transformador que resguarde nossas vidas e a meninas e mulheres que virão depois de nós.

 

Texto publicado originalmente no: Jornal A União