A Palavra que resta 

Coluna por: Sandra Raquew Azevêdo

05 de Janeiro de 2024

Antes do ano findar eu comecei a ler A Palavra que resta, de Stênio Gardel. Eu ainda estava processando o livro Fim, da Fernanda Torres, que acabara de ler. Tomei conhecimento do Stênio pela agenda midiática, e pela revista 451. Mas esperei um pouco para pegar o livro. Eu sou lenta para ler, e geralmente o hábito de leitura é rizomático, dando conta geralmente de alguma leitura técnicas na área de pesquisa e sala de aula, literatura, jornais, revistas, emails e redes sociais.

Ao ler o primeiro e segundo capítulos do romance Palavra que resta eu fiquei muito mexida por dentro. Desde a infância convivi com gays, lésbicas que viviam nas ruas por onde morei. Cresci numa família de acolhimento e respeito. Embora no microcosmo de uma pequena cidade sertaneja cercada por uma educação machista e marcada por episódios de grande crueldade com mulheres cis e trans, gays… Se engana quem pensa que cidades do interior são lugares de profunda tranquilidade.

Ao ler as primeiras páginas do romance entrei numa linha do tempo íntima demais. Pensando nas dores vividas por meus amigos e amigas gays. Mesmo que a gente não fale detalhadamente sobre alguns traumas físicos e emocionais, eu sei das dores que sofreram e enfrentam. E do risco cotidiano vivendo num país homofóbico e transfóbico como o Brasil.

Espancamentos, lixamento moral, abandono, indiferença, exploração financeira, silenciamento, omissão, estigmatização… e morte. Estas são algumas situações enfrentadas, tendo como protagonistas, geralmente, os parentes mais próximos que fazem da sua heteronormatividade uma maneira de dominação.

O livro do Stênio é de uma integridade no trato das questões íntimas, e de descrever como algumas violências acontecem e se desdobram na vida de personagens que reconhecemos em nossas vidas. É de rara beleza na narrativa sobre o amor, o afeto, o erotismo, o direito de existir.

Estou lendo devagar, pensando sobre as personagens Cícero, Raimundo, sobre as cenas desenhadas no texto. O livro é coisa de cinema. E li recentemente que vai mesmo virar filme. Que seja um dos filmes belos de se ver, e que ajude a transformar as mentalidades também.

Refleti também enquanto lia o livro sobre o quanto viver numa rua cuja vizinhança era formada por alguns casais lésbicos, e rapazes “solteiros” foi tão importante na minha formação humana. Mesmo a gente na adolescência, não compreendendo a complexidade das relações humanas, ter um ambiente de convívio plural, repleto de partilhas, respeito e solidariedade, num espaço comunitário, construiu um horizonte de formação que levei para a vida toda.

Nunca fui proibida de brincar com meninos gays de minha rua, que também eram acolhidos em minha casa, e as diferenças, hoje conhecidas como questões da diversidade humana, nunca foram parâmetros classificatórios para hierarquizar, oprimir, dominar.

A gente desde muito cedo, no exercício da vida comunitária numa pequena vizinhança, aprendeu a considerar que todas as pessoas tinham direito a viver sua espiritualidade e crenças em plena liberdade. Agradeço assim a minha ancestralidade e a diversa e inesquecível vizinhança que tive.

Vocês nem imaginam o quanto eu estou curiosa para ver em Palavra que resta a carta que Cícero deixou, e que, só depois de 50 anos, pôde ser lida por Raimundo, graças à descoberta leitura e da escrita numa experiência de alfabetização de jovens e adultos.

 

Texto publicado originalmente no: Jornal A União