Integrante do programa ‘Corona Vírus em Xeque’ é fonte em matéria do Jornal do Commercio

Ivo Henrique Dantas, integrante do programa Corona Vírus em Xeque da Rádio Paulo Freire, dá dicas para diferenciar as falsas informações das informações de qualidade. Você pode conferir na íntegra o texto de Débora Oliveira, publicado no dia 11/06/2020, em seguida.

O que é “infodemia” e como você pode sobreviver a ela

Especialistas explicam a pandemia da desinformação e como este fenômeno se relaciona ao nosso sistema de crenças e tomada de decisão.

 

Em março de 1989, quando o engenheiro de software Tim Berniers-Lee apresentou a World Wide Web para seu supervisor da CERN, o projeto não foi aceito imediatamente. Mike Sendall definiu o esboço como “vago, mas excitante”. Em 1991, um ano depois da proposta inicial, a primeira página Web estava disponível para a comunidade online.

Desde aquela época, já são mais de 4.1 bilhões de usuários na rede. Um número longe de significar uma inclusão global, mas suficiente para gerar trilhões de terabytes de informações digitais. Na parte desse oceano de dados gerada em 2020, o termo COVID-19 aparece pelo menos algumas milhões de vezes, o que fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificar o momento como uma “infodemia”. “Não estamos apenas lutando contra uma epidemia; estamos lutando contra uma infodemia”. A fala é do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, dita na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro deste ano.

A infodemia é definida pela OMS como um “dilúvio de informações – precisas ou não – que dificultam o acesso a fontes e orientações confiáveis”. Não é um fenômeno novo, como explicou Sylvie Briand, arquiteta da estratégia da OMS para combater o risco infodêmico, em entrevista a The Lancet. “Sabemos que todo surto será acompanhado por um tipo de tsunami de informação, mas também, dentro dessas informações, você sempre tem desinformação, boatos etc. Sabemos que mesmo na Idade Média havia esse fenômeno.”

Em seu livro de 1970, “Future Shock”, o economista e futurista Alvin Toffler já havia popularizado o termo “information overload”, ou sobrecarga de informações. A internet ainda dava seus primeiros passos como um projeto de comunicação entre universidades e o governo dos Estados Unidos. A Web, por sua vez, só viria a existir dezenove anos depois. De qualquer forma, naquela época Toffler popularizou a definição como a “dificuldade que uma pessoa tem para entender um assunto e tomar decisões que pode ser causada pelo excesso de informações.” O Grupo de Pesquisa sobre a Sobrecarga da Informação (Information Overload Research Group – IORG) afirma que o fenômeno é resultado da combinação de três fatores: o excesso, a baixa qualidade da informação e a falta de tempo.

O crescimento da Web e o advento das redes sociais tornou ainda mais comum este fenômeno. Em períodos críticos, como o da pandemia de covid-19, entretanto, a sobrecarga de informações ganha contornos mais letais, e mobiliza entidades como a OMS.

Infodemia explicada: o que é, o que provoca e quais as consequências

Um relatório da Organização Pan Americana de Saúde (PAHO) mostra o boom de informações compartilhadas sobre a covid no mês abril:

  • 361 milhões de vídeos carregados no Youtube com a classificação COVID-19
  • 19.200 artigos publicados no Google Acadêmico
  • 550 milhões de tuítes com os termos coronavírus, coronavírus, covid19, covid_19 ou pandemia.

Alguns estudos têm feito uma correlação direta da infodemia com o aumentos das informações falsas na área de saúde. Sandra Germani, coordenadora de neuropsicologia do Centro de Neuropsiquiatria e Neurologia Cognitiva da Faculdade de Medicina de Buenos Aires, entende a infodemia como um novo termo para a “informação falsa de saúde”. Inclusive, o fenômeno é estudado pela subárea da medicina, a infodemiologia, que investiga quais as consequências do aumento de informações sobre um assunto de saúde pública para o indivíduo.

“Se alguém crê em uma notícia falsa, como por exemplo, que lavar as mãos não serve para prevenir infecções, então essa pessoa muda sua conduta e para de lavar as mãos. Assim, fica exposto aos risco real de se infectar e ficar doente. Quando a falsa informação se infiltra e damos lugar a ela, nossa conduta é afetada”, explica a neurologista.

Um estudo publicado pela Avaaz sobre a infodemia de covid-19 concluiu que os brasileiros tendem mais a acreditar nas desinformações produzidas sobre a doença em comparação com os estadunidenses e os italianos, países onde o novo coronavírus teve maior incidência. Os entrevistados receberam notícias falsas e verdadeiras por meio de um formulário e foram questionados sobre em quais notícias acreditavam.

De acordo com a pesquisa, 73% dos brasileiros entrevistados acreditaram que pelo menos um dos conteúdos de desinformação era verdadeiro ou provavelmente verdadeiro, seguidos por 65% dos estadunidenses e 59% dos italianos. Isso corresponde a 7 de cada 10 brasileiros, ou cerca de 11 milhões.

Uma das causas para a dificuldade do cérebro em distinguir o conteúdo verídico do falso é a relação das convicções com a tomada de decisão, como explica Germani. “Ao cérebro se apresentam opções, uma sobrecarga de informações, e ele deve escolher em qual delas crer sobre um tema que mexe com sua saúde, sua sobrevivência. A decisão vem de algum ponto em comum com seu sistema de crenças, algum ponto de identificação.”

No ano passado, a Avaaz investigou a relação da desinformação com as vacinas. Para Nana Queiroz, coordenadora de campanhas da organização, ali foi vivenciado senão uma outra infodemia, um princípio dela. “Novamente as pessoas tiveram acesso a muitas informações nas redes sociais, não souberam separar a verdade do que é mentira e acreditaram em fontes não confiáveis”, explica a pesquisadora.

Desde de que Wuhan, na China, tornou-se o epicentro da pandemia, em janeiro deste ano, a desinformação sobre a covid-19 pegou carona nas atualizações dos temas mais quentes na mídia mundial e local sobre o vírus. Em entrevista ao instituto Reuters, a diretora-adjunta da Rede Internacional de Fact-checking (IFCN), Cristina Tardáguila, dividiu esse dilúvio de informações falsas em alguns principais temas. De janeiro para cá, segundo Tardáguila, houveram mais ou menos cinco ondas de desinformação sobre a enfermidade. Um estudo publicado pela UNESCO, separa esse conteúdo em nove ondas.

Piktochart

A IFCN publicou uma base de dados com todas as checagens produzidas pelas organizações parceiras sobre a covid-19 no mundo. Os maiores volumes de desinformação se relacionam com temas religiosos, com possíveis curas para a doença e teorias da conspiração. Mais de 1,100 checagens foram produzidas.

Ambas pesquisas da Avaaz apontam que redes sociais, como o WhatsApp, têm servido de canal para a propagação das notícias falsas, afinal, são as redes mais utilizadas atualmente como fonte de informação, como aponta o Digital News Report 2019, do Instituto Reuters e a Universidade de Oxford.

O que têm feito a OMS e as redes sociais?

Para atender a demanda por dados confiáveis sobre a covid-19, a OMS tem desenvolvido ações em conjunto com as principais redes sociais, para identificar e desmentir os boatos. Com o Pinterest, a organização montou um painel onde estão reunidas todas as informações confiáveis sobre o vírus. “No último ano, trabalhamos com a OMS para conectar os usuários a fatos sobre tópicos críticos de saúde, desde o novo coronavírus até vacinas. Queremos fazer a nossa parte para garantir que as pessoas possam encontrem informações corretas na plataforma”, explica a responsável pelas operações do Pinterest para América Latina, Mariana Sensini.

De acordo com Sensini, mais de 367 milhões de usuários acessam o Pinterest todos os meses em busca de experiências visuais, por isso, a plataforma adotou uma política de informação incorreta de saúde, em vigor desde 2017, que norteia os esforços para tornar as informações confiáveis, inspiradoras e úteis e facilmente acessíveis. “Na plataforma, removemos ou limitamos a distribuição de conteúdo falso ou enganoso que possa prejudicar o bem-estar, a segurança ou a confiança dos usuários ou do público, e não medimos esforços para combatê-lo.”

O Twitter anunciou uma atualização na sua política de conteúdo. A rede identifica contas e publicações potencialmente nocivas e, caso haja no tweet incentivo claro a uma ação que possa gerar danos à saúde ou bem-estar, a equipe revisa o conteúdo e o exclui. Desde 18 de março, data da implementação dessa medida, já foram removidos cerca de 1.100 tweets. No dia 29 do mesmo mês, a rede apagou publicações do presidente Jair Bolsonaro, por violar essas regras.

O Facebook lançou uma Central de Informações sobre a covid-19. A página reúne as atualizações sobre os casos no Brasil e no mundo. Posts nos quais os usuários solicitam ou oferecem algum tipo de ajuda também aparecem na central. A empresa baniu anúncios de máscaras respiratórias, desinfetantes e kits de teste da covid-19. Cerca de 2,5 milhões de anúncios foram removidos da rede. No caso de posts cuja desinformação não provoque danos imediatos, a rede utiliza etiquetas para sinalizar essas publicações como falsas e Inteligência Artificial para encontrar as cópias.

No Instagram, o Facebook adicionou notificações educativas para usuários provenientes de países onde há transmissão comunitária da covid-19. Basta pesquisar por #hashtags relacionadas à doença. No WhatsApp, dois chatbots foram lançados, um em parceria com a OMS (não disponível em português) e outro com o Ministério da Saúde. Os bots respondem a perguntas frequentes e dão dicas de prevenção.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) também lançou um bot no WhatsApp para responder dúvidas sobre o novo coronavírus. As perguntas feitas pelos usuários são respondidas com base em dados do Ministério da Saúde, da OMS e do UNICEF. Para fazer perguntas ao chatbot, basta clicar neste link e enviar uma mensagem, ou salvar o número: +55 61 3035-1963.

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